sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Não reconhecia-se mais, um escritor em declínio
dividia as doses de aguardente, com doses de lupicínio
cinismo, não guardava no bolso
e o lirismo antigo, só era presente no almoço
só comia, pra continuar respirando
olhava e ouvia, mas se retinha ao segundo plano
osso cotidiano, mastigado ás pressas
escrevia seus salmos em guardanapos pra fazer suas preces
farelos de esperança varria pra debaixo do tapete
quando conseguia acordava pra vender itens de enfeite
mas sem adereço mantinha trajes bonitos
mocassim, calça velha e palitó encardido

seu primeiro romance inspirado em cordas de aço
agora representa finos barbantes, bem acessível ás traças

sua cabeça: um prédio contemporaneo de babel
dinheiro desviado, construção embargada e dívida de aluguel
por questões de segurança, demoliram esta obra
aves daninhas que me contaram das sobras
o morro está de luto, pela dona do bar
senhora educada, que o humano-fantasma vivia a assombrar
este mesmo mulambo da primeira parte
se afogava na fuga, e ficar sem ar era arte
diziam pra ele pensar em si, ainda há um deus
ele respondia, bem calmo, ainda há um adeus
antes de tudo, ainda deu mais um trago
usou o mesmo palito, pra realizar o ultimo ato
não teve remorso! o incendio era o basta!
virou um traçado, em respeito a nossa senhora das graças!
o amargo castigo, poderia ser premio de consolação
despediu-se da boemia e de si, sem aperto de mão
se refugiou no seu mais lindo lar, se sentia bem em tabernas
virando sombra, no seu proprio velório, o boteco o enterra

"foi assim", disse dona divergencia

pra não brigar com ela, que nada tinha culpa
se despediu contando os dias, sem pedir desculpas
a homenagem veio ao fim da primeira brasa
o jardim da saudade dava lugar aos escombros, na nova casa
e pra quem duvida, se até na morte tem vida
pergunta ao carteiro, que todo dia sorri, ao passar pelas margaridas

gael