quarta-feira, 12 de agosto de 2015

samba de ponta/1

a vontade e o compromisso
quero o samba mar fico omisso
e ao invés disso:
num ritual que me encontro submisso
vou pra cama já em coma, com a cabeça no serviço
gael

Desarrebatado (até arranjar titulo menos pior)

tarra bolado, encrespado qua situação
33 ano de vida e nenhum de perdão
de dívida tinha ele: as financeira
essas, mesmo secundárias, lhe martelavam a orelha
mas num era "só" isso, nada era claro
anjos e demonios brigado ao seu lado
era testado e cascorado pra adversidade
esqueceu como se ria e sorria
esa fonte ja tinha secado, dela nada saía
pros que o maldiziam, muitos, ele sabia.. era suja divindade
olimpo no gueto, sem vitórias e glórias
"caráter não é rg" repetia a confusa memória
se contrariando e contrariado, se redimiu, não riu nem sorriu, só partiu!
navalha e abismo corda bamba: um fio
como se tivesse subido aos céus, griot de seu estado interno
nu como melhor podia se vestir, com dita elegancia de terno
chegou educado, batendo a porta do inferno


gael solo

Fazer Samba

fazer samba é momento de tristeza
momento de liberdade, momento de pureza

fazer é samba é bater na palma da mão
sorrir sem nenhuma vaidade,
e chegar no sapato mesmo de pé no chão

fazer samba é enxergar com os olhos fechados
a alma do amigo chegado
e ouvir o surdo marcado no coração

fazer samba é tocar até sem instrumento
sentir todo sentimento, do batuque que é alento

fazer samba é tomar boa cachaça,
com cigarro de palha
batucando na praça

fazer samba é se entender bem pequeno
pra não transformar cura em veneno
e daí, mergulhar na desgraça

fazer samba é suar com a alma
lapidar nossas mágoas
e festejar até mesmo sem palma

fazer samba é ter pouco e não pedir mais
respeitar nossos ancestrais
e enxergar que não há momentos de guerra e paz
até entender, que não fazemos samba
o samba sim, que nos faz

gael

lodo

desde o nascimento na minha existencia passeio no lodo
e ce num acha que quero explodir esse organismo todo?
como voce ando em gravetos e espinhos
com pés descalços no chao percorro meu caminho
que por questões de amizade as vezes tbm vira é nosso
pelo que vejo e passo, eu faço o que posso
sem ambição de mártir ou jesus
caí, mas mostro que pra alguns ascendo luz
como me ajudaram, (sempre) sem judas
não me traio, em ponto de guerra, fecho agruras
não represento exemplo, nem que tivesse tempo
hajo (sou) como ser coerente num minimo espaço de alento
troco papeis que valem valores
ideias incolores, nao acredito em ficção mas em filmes de horrores
que reduzem seres vivos a meros compradores
que fazem promoções e se fazem-valem de credores
fazem questao de te humilhar ao vivo e a cores
no novo coliseu, um espetáculo triunfante
voce é um bom rapaz, se se portar comprante
e iluda sua femea, pra pare(ser) constante-tolerante
já que vivemos a reduzir futuras mães
enquanto machos alfa vivem de explodir champagne
parabens ao comedor que a todas devasta
castrem a mocinha, e sua raça nefasta
vive uma vida de total subserviencia
crê que faz o bem na mais pura decencia
peco como humano, e não rezo de joelho
e como voce me pergunto, quem sou querido espelho?

gael

Anjoado

De estatura inadequada
o anjo de atitudes falhas
erra na medida e se atrapalha
cai na História sem fim, do conto sem fadas
a culpa que julga alheia lhe tira o peso
pois se a assumisse, tava obeso
sem sucesso, inoperante ao tentar sair ileso
recorre a atitudes ineficazes
desconta no inerte espelho, tentativas fugazes
e reconhece que só ele, pode achar suas próprias gazes
seu lugar num era ali, passava desapercebido
de escorregos frequentes, era anjo fugido
duvidava se enquanto ser, tava vivo
ou se só era mais um mero registro no mundo-arquivo
se era documento e se tinha valores
se valia a pena a quantidade de dores
se desistia, e se entregava aos algozes
se dava ouvidos as multiplas vozes
...

gael

Açogue

Tocar a carne não é comê-la
Comer a carne não é tê-la
O caçador resume sua caça á minimas presas
E a caça compreende quem em matéria de cadeia alimentar, não ocupa a realeza

Buscar a carne, é fé na captura
Achar a carne, é de vida e morte: disputa
Transformar a carne em troféu, faz parte dessa conduta
E menosprezar a carne, é veneno sem cura

A carnificina é bater cartão nesse ofício
A sede por carne, leva o sangue a ser vício
A carne ter voz pra falar, é instante fictício
E a carne sobreviver, é raro e muito difícil

Contra a carne tecnologia, tiros e armas
condecorações, medalhas, dinheiro e fardas
A favor dela a vida nas sombras, escassa e em fuga
Atenta por estar sempre em perigo, vive sempre confusa

A carne é derrotada e morta e em paredes exposta
A pergunta é (d)a máquina que tritura, e a carne a resposta
De diversos tamanhos e formas, a carne tá na mesa posta
Mal passada ela vive, mesmo tano sempre disposta

A carne é mastigada, devorada e ás vezes cuspida
Olha pra si e enxerga um prato cheio de dor e uma porção de feridas
Somos movidos a ver a caça como atividade legal e bem divertida
Resta saber se tu mata sua fome, executando outras vidas

gael

bonitas palmeiras

voce se encontra bem no meio
da tempestade e a calmaria
extremidade de si mesma
é a eterna poesia

a noite e o dia
brigam pra lhe ter presente
o sorriso de luar
que ilumina o ambiente

seus lábios como faca
que me cortam o coração
e essa faca tem dois gumes
pois me ceifam a razão

sua ginga me embriaga
e o chão imortaliza
a saliva de veneno
na capoeira dança-viva

a valentia de uma flor
pra se manter com vida:
é a navalha Palmerão
e a espingarda de Bonita

gael

jogado morgado

Jogado na cama, morgado, o melhor de Jimmy Cliff os ouvidos
É domigo, e estou jogado a cama, morgado
"maravilhoso mudo, pessoas boitas":utopia nata! morgado estou, jogado na cama
Com a Má na cabeça, desde uma noite vegetativa, na cama jogado estou morgado
Não me culpe, culpe a noite da imperial cidade, jogado morgado na cama estou
Viro o lado do vinil, e por um instante deixo de estar jogado na cama, mas continuo morgado
jogado morgado na cama estou, escutando o homem bongô falar a lingua diferente dele
voz hora grave, hora aguda, possivelmente não está jogado numa cama morgado
uma orquestra mista entre aves de pequeno porte, coletivos e onomatopéias bairristas invadem o quarto que estou morgado numa cama jogado, e se mistura as falas, mais baixas agora, do homem bongô,
levanto, olho, confirmo, "mamãe olhe as montanhas" e desloque seu pensamento, o meu? jogado numa cama morgado
Não é sempre, pode jogar o receio fora, e se der o recicle. É ano de sabatinas, e o futuro mais uma vez se põe em jogo e eu jogador morgado estou na cama
Jogado na cama, morgado, o melhor de Jimy CLiff nos ouvidos
É domingo, e estou jogado na cama morgado

gael (2009)

Bar (i)mundo

Entro no recinto, peço paz, a atendente diz que acabou, acrescenta que á essas horas será muito difícil de achar, mesmo que numa pequena dose. No momento me revolto e penso “Como num estabelecimento desses não se tem paz?”, não demonstro minha ira, agradeço e peço um copo de paciência, mesmo não gostando muito, era a única coisa que podia beber naquele momento. A moça que me atendia, uma jovem bonita vestia sua roupa branca e por mexer com comida tinha o cabelo amarrado, bem simpática puxou assunto: ”Estranho hoje em dia alguém pedir paz, a gente tem vendido muita coisa diferente dela, coisas até de fora. Lá da América, arrogância vende bem, guerra santa é outra bem pedida, fora a especialidade dos franceses xenofobia com um toque de eugenia alemã”. Gostei de menina, sabe de coisas e passa uma tranquilidade tremenda.O tempo ia passando e nós nos entendendo, nem percebíamos o passar dos minutos. Até que ela disse que era tarde e precisava fechar. Então a convidei para conversar e tomar algo. Antes de aceitar me deu uma garrafa de simplicidade. Fomos para minha casa, conversamos, vários beijos e uma bela transa. ”Que jovem maravilhosa”. Ela dorme comigo, no outro dia tem de sair cedo, resolver problemas do bar, mas diz voltar. Um último beijo. Que agradável noite, e vi que a paz que tanto procurava, encontrei nela, nela quem? A jovem atendente, ahh sim, seu nome? Maria, e que Maria!

gael (gabriel kopke 18 anos na época)