quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A caminhada

Num só gole tomou todo copo d'água e saiu de casa. Precisava dar lugar aos pensamentos que como moscas, zanzavam ao seu redor. Estava com os inseto-ideias há tempos na cabeça, mas soube administrá-los. Era fim de tarde e graças ao horário de verão. o sol pedia à irmã lua mais tempo para reinar. Processava seguidamente cada pensamento e hipótese, casa dívida e gratidão, cada atitude e reação. E quando achava que estaria no fim, incomodado recomeçava o processo com indefinidas teorias. Passava por ruas que não sabia o nome, caminhava sem ligar pra horário. A atenção era toda para dentro de si, tanta era a distração que não ouviu Raul o chamar e por duas vezes tropeçou. Sentia que algo próximo iria mudá-lo para sempre. Criava uma auto-expectativa, pequena, mas criava. Começou a lembrar de algumas dívidas que contraiu, de problemas que acumulara e empecilhos cotidianos que "obstacularizava" sua vida. Na época (em) que era mais novo não imaginava estar nessa situação. mas agora era tarde. Não podia voltar atrás. Só podia recomeçar. No momento em que reparou um acidente, estacionou seus pensamentos. Hesitou, duvidou e optou em dar uma olhada na tentativa de esquercer-se um pouco. A multidão já estava formada, com curiosos e pseudo-interessados, além dos médicos que ali trabalhavam. Era um típico atropelamento de distração, só que dessa vez, do transeunte. Aos poucos ele se aproximava da futura manchete, e já na frente, enxergando o acidentado, foi tomado por grande surpresa. Reconheceu totalmente a vítima. Na percepção instantânea  seu estomago revirou, a cabeça entrou em nós e o coração acelerou. Era ele próprio que estava ali no chão, sendo observado por todos. Deitado e inerte, só não estava totalmente pálido por causa das manchas vermelhas que o coloriam. Quando voltou a si, abdicou de seu protagonismo no acidente e deixou a tumultuada avenida para trás. Quarteirões e minutos depois, percebeu que fez a melhor escolha, pois poderiam tê-lo reconhecido e o acusado de mentiroso ou caluniador. Continuou andando até notar que estava bem longe do ponto de partida, se sentiu satisfeito pela distancia percorrida e decidiu não voltar mais. A intensidade do acontecido foi tanta que não se preocupou em buscar explicação alguma. A partir dali era um caminhante sem passado. Apenas uma sombra clandestina, num mundo de luzes.
gael k

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