Me devoraram todo. No inicio não percebi os vi chegar, momentos depois não incomodavam tanto. Os ratos foram tomando espaço pouco a pouco. Queriam comer meu cérebro. Conseguiram. Eram pequenos e quietos, por isso não notei suas chegadas, o número foi aumentando, eles se reproduzindo... Tarde demais. Fui devorado por hordas de ratos cinzas, pretos e famintos. Me roeram feito uma estrutura de madeira. Sembase, ruí por dentro. Com seus dentinhos brancos e afiados fizeram o maior estrago que pude presenciar. Pareciam fazer questão de roer até meu último pedaço. O fizeram com precisão. Servi de alimento para uma infinidade de famílias roedoras, locais e retirantes. Não tiveram pena alguma, não eram humanos. Se o fossem poderia ter sido pior. Toda racionalidade me foi em vão, todos livros lidos foram em vão. O processo parecia um ritual, dançavam na minha barriga, gingavam em minhas pernas. Pareciam zombar da minha condição humana, se empenharam. Foram tão eficazes quanto proletários a produzir riquezas a um burguês. Quando saciados, sem qualquer tipo de remorso, saíram todos á procura de mais alimento. Estavam famintos. O arrastão dos habitantes do esgoto intimida. Não se apavore, eles vem de mansinho. E ser o resto do que já fui um dia não é tão ruim assim, estar morto me fez me sentir mais vivo do que nunca.
gael
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